segunda-feira, 9 de novembro de 2009

exu trava lide

Estou desconfiada da existência de uma entidade no jornalismo chamada exu trava lide, ou lead, como preferirem. O exu trava lide é uma entidade engraçadinha que perambula pelas redações jornalísticas esperando para pregar uma peça no próximo otário em dia de fechamento. Explicando para quem não é jornalista.
Lide ou lead, (como preferirem) é aquele comecinho da matéria, aquele que “teoricamente” te diz o que aconteceu, quando, onde, como e porque. Ele é quem dita a sequência do texto, é quem dá o tom.
Fechamento é um dia comparável ao apocalipse. Você tem que entregar todos os seus textos ao editor, torcer, rezar e fazer mandinga para que ele goste, responder todas as perguntas absurdas que ele certamente terá sobre seu texto, tentar ser desprendido enquanto ele dilacera sua matéria. E não é tudo. Depois de passar pelo editor você ainda tem que esperar que o pessoal da arte diagrame (desenhe, monte) sua página, jogar o texto nela pronta, cortar os milhares de caracteres que certamente estarão sobrando já que no jornalismo brasileiro uma foto é mais valiosa que umas 5 mil palavras, imprimir e levar ao chefe do seu editor para que ele faça mais algumas alterações, voltar ao pessoal da arte, fazer as mudanças necessárias, imprimir novamente e devolver ao seu editor. Resumindo é isso.
É de se entender que nesse dia apocalíptico os jornalistas deixem a redação em horários no mínimo fora do comum. Logo, quanto antes você terminar sua matéria mais cedo você poderá ir para casa. E é sempre nesse momento que o exu trava lide aparece. O primeiro sintoma é claro: você fica durante minutos inerte em frente à tela em branco do Word. A página cretina parece rir de você. Logo você começa a despejar besteiras na página, na esperança de que algo preste, mas o exu não permite, ele provavelmente estará rindo da sua cara. Nesse meio tempo o editor, que obviamente está pouco se fodendo para o exu já te cobrou a entrega umas 7 vezes. Você com todo o cinismo, diz que já está terminando, quando na verdade já desistiu e resolveu escrever um texto alucinado no blog. Então fica um pedido desesperado. Se alguém aí conhece algum pai de santo, padre, pastor, feiticeiro, sei lá eu, alguém que saiba dar um fim nesse engraçadinho do exu trava lide me apresente antes que eu perca meu emprego e vire vendedora de coco na Praia do Forte.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O que faz você feliz?


Passei dias pensando no que escrever sobre minhas férias na Praia do Forte, Bahia. Talvez sobre a paisagem, quem sabe sobre as pessoas ou talvez seria melhor escrever sobre a crise existencial que se apossou de mim depois da volta? Sobre a falta que estou sentindo da paisagem, das pessoas...Bom...resolvi que não consigo escrever sobre isso. Aqueles dias só se explicam na minha cabeça e no meu coração. Então vai ai um textinho publicitário que acho incrível e que é mais ou menos o que eu não tive competência de criar aqui.


O que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Uma rua, passear
Um doce, uma dança, um beijo
Ou goiabada com queijo
Afinal, o que faz você feliz?
Chocolate, paixão, dormir cedo, acordar tarde
Arroz com feijão, matar a saudade
O aumento, a casa, o carro que você sempre quis
Ou são os sonhos que te fazem feliz?
Dormir na rede, matar a sede
Ler ou viver um romance
O que faz você feliz?
Um lápis, uma letra, uma conversa boa
Um cafuné, café com leite, rir a toa
Um pássaro, um parque, um chafariz
Ou será o choro que te faz feliz?
A pausa para pensar
Sentir o vento, esquecer o tempo
O céu, o sol, um som
A pessoa, ou o lugar?
Agora me diz, o que faz você feliz?
A lua, a praia, o mar
Ser amado e amar
Brincar até cansar ou trabalhar
Correr sentindo o vento
Ou correr contra o tempo
Botar o pé no chão ou só sonhar
Um filme uma conversa boa
Passear e rir à toa
O que faz você feliz?
Acordar sempre tarde
Comer um chocolate
O que você prefere, então me diz
Não deixe a vida passar debaixo do nariz
O que faz você feliz?
O que faz você feliz?
O que faz você feliz?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Sobre a vida e a morte II



Quem acompanha este blog desde o início deve se lembrar que ele foi inaugurado com um texto entitulado "sobre a vida e a morte" http://historiasedevaneios.blogspot.com/2008/01/sobre-vida-e-morte.html. Naquele texto, diretamente influenciado pela morte da minha madrinha e do meu avô e pelo nascimento de um primo, coloquei um pouco dos meus devaneios sobre o assunto.

Um ano e 8 meses depois este assunto voltou à pauta da minha vida. Apesar de sombria resolvi lhes contar esta história, que teve início no dia 12 de agosto de 2009. Neste dia recebí a notícia do meu editor de que no dia 18 eu iria para Laguna Beach, Califórnia para realizar uma visita à sede da Oakley e algumas entrevistas com seus executivos. Como todos devem imaginar, a notícia foi recebida com muita comemoração. Pois, no dia 18 deixei a redação por volta das 15h em direção ao aeroporto internacional de Guarulhos. Chovia muito em São Paulo, o céu em tom de cinza escuro parecia estar mais perto da terra, as rajadas de vendo acompanhadas da enxurrada de água pareciam lavar a cidade, talvez castigá-la. As ruas não davam vazão a água, muito menos aos carros que se enfileiravam tentando chegar a um lugar qualquer. Alguns pensamentos passavam pela minha mente enquanto o motorista do táxi salteava entre algumas estações de rádio, uma pior que a outra. "Com essa chuva, talvez não chegue em tempo", "Talvez a chuva atrapalhe a decolagem", "Lembrei de trazer o passaporte?"

Por alguma razão que ainda não descobri qual, sempre fico com o coração um pouco apertado antes de viagens. Não tenho nenhum medo de avião, pelo contrário, adoro. Também não tenho medo de lugares desconhecidos, pelo contrário, me fascinam. Mas enfim, o coração fica apertado.

Uma hora depois lá estava eu, sentada no saguão do aeroporto esperando pelo voo. Durante uma hora observei as pessoas que passavam e aquelas que entrariam no avião junto comigo. Uma mulher levava seus dois filhos espevitados, um americano alto trajando bermuda florida e camiseta carregava a expressão de saudade de férias, um grupo de 5 adolescentes conversavam em alto som, animadamente sobre sua viagem de férias, dois americanos negros e altos, com tranças raiz nos cabelos ouviam seus ipods, dois executivos conversavam sobre negócios ao meu lado, uma mulher com um bebê no colo me chamou a atenção, "seu bebê é lindo", "obrigada".

21:50h o voo da American Airlines 962 chegou. Aos poucos todos embarcaram.

Ao meu lado um morador de San Diego contava sobre os dias no Brasil. Com uma hora de voo o jantar foi servido. "Beaf or chicken?" Chicken. No serviço de entretenimento do avião algumas opções de filmes. Escolhi X-Men Origens, pensei que seria um filme leve, amenizaria as muitas horas de voo. Após 20 minutos do filme adormeci. Eu sonhava mas não me lembro com o que. No meio do meu sonho algumas pessoas começaram a gritar. Aos poucos fui deixando o estado adormecido e voltei à realidade. Quisera ter permanecido dormindo, assim como um homem que estava jogado em sua poltrona com a boca aberta, provavelmente sonhando com algo melhor do que viria a acontecer naquele avião.

- Existe algum médico neste avião? Por favor, existe algum médico neste avião?

-Sim eu sou médica

Duas poltronas atrás da minha, uma mulher chorava sacudindo o marido apático.

O homem de cerca de 50 anos foi retirado da poltrona pelos comissários e pela médica.

- Desfibrilador rápido! RÁPIDO!

No meio do avião, deitado no chão, o homem recebia os choques daquela médica, a mãe que no saguão do aeroporto segurava seu bebê, a mesma com quem conversei sobre a beleza de seu filho.

O americano ao meu lado apoiou o rosto nas mãos e ficou em silêncio. Não sei se rezava, se pensava ou se chorava. Eu chorei, um choro tímido, de impotência. Também rezei, pedi a Deus que não deixasse que aquele homem morresse naquele momento. Talvez Deus saiba melhor que eu qual o melhor momento para alguém morrer. O homem morreu. Sobrevoando a Cordilheira dos Andes. De acordo com sua mulher, ainda em estado de choque, ele jantou e dormiu, dormiu um sono sem fim.

O silêncio pairou no avião.

Alguns minutos depois e o comissário disse: "Senhores passageiros, tivemos uma situação de emergência no voo que já está sob controle"

CONTROLE. A palavra não me saía da cabeça. Que controle temos sobre esta vida? Pensamos que podemos controlar nosso peso, nossa rotina, nosso futuro, nossos sentimentos, nosso dinheiro. Pensamos que podemos controlar a natureza e o inesperado. Poupamos dinheiro pensando no futuro. Deixamos para amanhã a convivência com a familia, os momentos de alegria, tranquilidade. Fazemos tudo em busca de dinheiro, status, reconhecimento. Pois mais uma vez eu vi, bem na frente dos meus olhos, que a morte não nos dá um tempinho a mais, uma canjinha, um chorinho, uma saideira.

Para aquele homem, a viagem terminou ali.

Pensei na minha vida, nas minhas preocupações, naquilo que é importante para mim e naquilo que eu pensava ser importante. Mais uma vez levei um puxão de orelha, um pontapé do destino, um recado de Deus, chamem como quiser. O fato é que a vida é breve e não tem prazo de validade. Espero, profundamente, que aquele homem tenha amado, tenha beijado as pessoas importantes, tenha tomado um porre sem se preocupar, tenha perdoado, tenha dado mais importância às pessoas que ao dinheiro, tenha aprendido que um trabalho é apenas um trabalho, tenha dado risada sem se preocupar em parecer tolo, tenha comido pratos maravilhosos, conhecido lugares inesquecíveis, feito amigos sinceros, tenha amado e respeitado seus pais, alcançado uma relação de amizade com seus filhos e principalmente tenha descoberto que sua vida era o presente mais maravilhoso de Deus e que a pessoa, dentro daquela carcaça mortal era valiosa.

Eu espero que eu aprenda todas estas coisas, antes do fim da viagem.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A intenção deste blog nuca foi se tornar um diário, o que eu pretendia era ter um espaço para escrever o que eu queria, aquilo que tinha vontade, sem pensar em pauta, em público alvo, em número de toques, editor, ou qualquer coisa assim. A questão é que hojeeu preciso de algum lugar para descarregar, para dizer tudo aquilo que não posso dizer, na verdade, posso, mas não devo. Quando meus pais se sepraram a terapeuta disse pra minha mãe: "Escreva em um caderno tudo aquilo que te angustia, que te amargura, que te irrita".
Hoje me apodero deste espaço como meu caderno de desabafos. Peço desculpas a quem lê meu blog, vocês de fato não merecem isso, mas farei mesmo assim.
Existem algumas coisas que você aprende em casa, quando criança, aprende como sendo a atitude certa, aquilo que você deve fazer. Pois é, é muito dificil quando você é obrigado a conviver com alguém que é exatamente o oposto de tudo aquilo que você aprendeu.
Eu sempre ouvi: Seja honesto, educado, gentil, corajoso, humilde, sicera e acima de tudo, sempre, sempre respeite os outros. Trate cada um como você gostaria de ser tratada, independente de quem seja. Pois é isso que eu faço.
O que sinto hoje, por esta pessoa, é um misto de piedade, rancor e desprezo, que na minha opinião é o pior de todos os sentimentos. Tenho pena, pois é obvio que a felicidade alheia o incomoda. Tenho raiva, pois ninguém além dele é culpado por suas amarguras e descontentamentos e ninguém deveria ser culpado por suas inseguranças. Sinto desprezo, pois alguém que não é capaz de ter respeito pelos outros não merece nada mais que isso, desprezo.
Deixo este post esperando, sinceramente, que em breve eu não tenha mais que conviver com alguém tão pequeno.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Alguma coisa acontece no meu coração

Acho bem piegas colocar letra de música no blog, mas hoje, me sentindo meio pra baixo (o que por si só já é bem piegas), só conseguia pensar nessa música. Então, lá vai.

Sampa
Caetano Veloso

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Resposta à crise existencial do post anterior


Você pode optar entre escalar o Everest sozinho e sem oxigênio ou contratar um guia e sherpas para carregar suas mochilas, colocar escadas sobre as gretas, apoiar-se em 2 quilômetros de cordas fixas e ter um sherpa te puxando e outro te empurrando. CEOs e cirurgiões plásticos ricos e poderosos que tentam escalar o Everest dessa maneira estão tão fixos no objetivo - o cume - que comprometem o processo. O foco em escalar montanhas grandes e perigosas deveria ser obter algum tipo de crescimento pessoal ou espiritual, mas isso não acontecerá se você comprometer o processo inteiro.


Por Yvon Chouinard

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Alguém que eu não pretendia ser


Estou pouco a pouco me tornando um ser que eu não pretendia ser. Sim. As letras de Zé Paulo me caíram como uma luva. Mas parafraseando a mim mesma explico melhor a confusão que não tem explicação. Estou cansada. Um cansaço que passou do limite físico, um cansaço que dói cada osso da alma, cada músculo do espírito e cada pedaço de pele do pensamento.
Estou cansada de levantar pela manhã, de girar a chave no contato do carro, de dirigir como um zumbi pela marginal, de sentar à frente do mesmo computador, ouvir as mesmas piadas, sentir a mesma angústia, o mesmo medo, a mesma insatisfação. Cansei de mastigar, de pensar, de piscar.
Cansei das luzes vermelhas que se enfileiram à minha frente na volta.
Cansei da rosca simultânea, do agachamento, da esteira. Cansei de andar e não sair do lugar, cansei das pessoas.
O pior cansei de tudo que sempre sonhei para mim. Cheguei ao acampamento base do Everest, ainda tem tantos outros lá pra cima, mas cansei disso. Olho para baixo e penso, qual o sentido desta subida? Será que vou chegar lá em cima? E quando chegar será que perceberei que a subida foi em vão. Que a bela vista não compensa na realidade todo o esforço?

Esses dias ouvi: “você se decepciona tanto porque quer ter tudo ao mesmo tempo. Quer ser bonita, magra, malhada, inteligente. Escrever um livro, beber cerveja, se divertir, ser responsável e irrepreensível”. Quero ter sucesso e tranquilidade. Quero ter dinheiro e tempo livre. É, acho que realmente to querendo demais.